sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Evangelização: missão e desafio - 8




Na semana passada, refletimos um pouco sobre a catequese centrada na doutrina. Vimos como ela se afirma, em que princípios se apóia, suas vantagens e riscos. Hoje falaremos sobre outra tendência: a catequese centrada na mudança social.

Catequese centrada na mudança social
Falamos muito da Igreja, pouco de Jesus, e quase nunca do Pai.
A teologia transformou-se em sociologia pastoral
(Johan Konings).

Outro modelo é o da catequese centrada na mudança social. Não é difícil detectar sua presença, nem perceber seus sinais. Uma “catequese pé-no-chão”, como foi muitas vezes chamada, começou a fazer história. Passo a passo, surgiu um modelo de evangelização que tomou vulto e ganhou uma linguagem teológica própria.
Muitos teólogos abraçaram esta causa, e um discurso inovador foi construído. A Teologia da Libertação muito tem contribuído para isso, pois fez teologia a partir do pobre e de seu lugar existencial. Não adaptou uma teologia européia para o pobre, nem fez teologia primeiro para depois levá-la até ele. Fez teologia com ele. Uma reflexão surge da práxis libertadora e não o contrário. Teólogos de renome como Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino, João Batista Libanio, Leonardo Boff e outros deixam legados importantes neste sentido.
Por meio deste discurso mais libertador, alguns pastores tentam mobilizar e conscientizar os católicos. A própria catequese, em algumas paróquias, ao preparar para os sacramentos, não admite mais os manuais doutrinários. É preciso sempre partir de fatos concretos, muitas vezes reveladores de opressão. Os planos de encontro passam a ser chamados de Projetos de Ação Evangélico-Transformadores (1) . Transparece o desejo insistente de unir fé e vida. Um esforço de sair da mera reflexão sobre a Palavra de Deus, para atuar efetivamente nessa realidade cruel que precisa ser transformada.
Porém, não foram poucas as vezes em que essa tendência evangelizadora desprezou certas orientações importantes oferecidas pela Igreja, com o argumento de que elas não vêm da comunidade, não brotam do povo, como se a Igreja fosse uma democracia. Alguns, além disso, aboliram toda sistematização do anúncio da Palavra, alegando que deve
_________________________________________________________________________
(1) O DNC ainda traz esta terminologia. Cf. 13 g.

ser anunciado o que brota da realidade concreta da vida, de um fato real que acaba de acontecer ou de um problema concreto que ameaça a comunidade. Como se vida cristã fosse só resolver problemas, lutar por justiça e denunciar abusos. A doutrina foi relegada a um segundo plano, ou extinta, ou ainda colocada em função exclusiva do fim social almejado.
Assim, alguns padres passaram a não anunciar mais a Palavra de Deus, proclamada na liturgia. Usam o altar para mandar recados para os poderosos, fazer campanha política, protestar contra algum fato. Alguns catequistas não admitem mais um manual que auxilie nos encontros: lêem revistas, recortam jornais, conversam sobre notícias do rádio e da televisão. Entendem assim estar fazendo uma catequese “pé-no-chão”.
Ora, o documento Catequese Renovada da CNBB, que fez história na catequese no Brasil, citando a Gaudium et Spes, havia alertado para o fato de que as angústias do homem moderno deviam ser assumidas pela catequese:
_________________________________________________________________________
A catequese atual deve assumir as angústias e esperanças do homem de hoje, para oferecer-lhes a possibilidade de uma libertação plena, as riquezas de uma salvação integral em Cristo, o Senhor... As situações históricas e as aspirações autenticamente humanas são parte indispensável do conteúdo da catequese (CR, 73-74).
__________________________________________________________________________________
Essas afirmações significam que não basta oferecer doutrina ao povo. É preciso assumir suas angústias, esperanças, sonhos, desejos, sofrimentos, tudo que o envolve. E, assim, oferecer salvação integral e libertação plena. Mas não foi isso que aconteceu.
A preocupação com a realidade sócio-política deu formato a uma catequese que parte dos problemas sociais e políticos: o problema da terra, da saúde, da pobreza, das barragens, do esgoto. Tudo isso se tornou conteúdo da evangelização. E, sem dúvida, este foi um grande avanço, pois trouxe para o discurso da Igreja uma realidade muito válida e necessária. Algo profundamente humano que não podia ficar fora do âmbito cristão, a não ser com grande prejuízo da boa-nova de Jesus Cristo. Esse método foi praticamente assumido como método da Igreja latino-americana, sendo, por isso, quase intocável. Mas será que a Igreja, ao anunciar a Palavra de Deus, quer somente formar um militante social? Será que a realidade humana não é mais complexa e abrangente que isso? É bem verdade que os adeptos desta corrente já mudaram um pouco seu discurso. Faz parte do mesmo, agora, a celebração, a vida festiva, a ecologia, a linguagem materna que amacia o discurso socializante, indigesto demais para homem e mulher pós-modernos, que estão marcados pela emergência da subjetividade e pelo retorno do sagrado. É só conferir as mais recentes publicações de Leonardo Boff (2) .
____________________________________________________________________________
Em todos os campos da experiência humana e cósmica topamos com o mistério. Ele é o outro lado e o profundo de toda a realidade. O órgão de sua capacitação é antes o coração que a mente. Pelo coração desenvolvemos a convicção de que, por detrás das estruturas da realidade, não vigoram o absurdo e o abismo, mas triunfam a ternura, a acolhida e o amor que se comunicam como alegria de viver, sentido de trabalho e sonho frutuoso de um universo de coisas e de pessoas, ligadas fortemente entre si e ancoradas no coração d’Aquele que se deixa experimentar como Pai e Mãe de infinita bondade .
_____________________________________________________________________________
Mas, apesar de tudo, a catequese libertadora continua seu discurso de militância. Certamente um cristão maduro é aquele que assume, entre outros desafios, o compromisso com a realidade. Mas, se a pessoa tem apenas resposta para os problemas sociais e políticos, não parece ainda ter chegado à maturidade cristã desejada, já que surgem outros problemas e questionamentos que extrapolam o âmbito social e também são importantes para a realização cristã do ser humano.
Paralelamente a este discurso de tom socializante, cheio de utopias e projetos transformadores, outra linguagem mais macia se apresenta. Um discurso mais voltado para a conversão pessoal se desenvolve, adubado pelo retorno do sagrado e da emergência da subjetividade. Mas isso é outro assunto e fica para a próxima semana.

SOLANGE MARIA DO CARMO
DOUTORANDA EM CATEQUESE E PROFESSORA DE TEOLOGIA BÍBLICA NA PUC-BH
AUTORA DA COLEÇÃO CATEQUESE PERMANENTE DA PAULUS EDITORA COM Pe ORIONE (MATERIAL QUE SERÁ ADOTADO PELA DIOCESE DE LORENA EM 2010)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá. Seja bem vindo (a)!!! Deixe seu comentário. Será bem legal.
Obrigada. Volte sempre!!!!!