sexta-feira, 11 de março de 2011

PAULO E OS EVANGELHOS - 02


A perda que é puro lucro:
exigências do seguimento de Jesus em Mc 8,34-38 presentes no testemunho de Paulo
(2ª parte)

Percebendo que o seguimento do mestre Jesus tem traços característicos próprios, o evangelista Marcos encaixa as exigências necessárias do discipulado nos relatos de “anúncio da paixão”.
“Se alguém quiser seguir atrás de mim, renuncie-se a si mesmo, leve a sua cruz e siga-me” (v. 34b). Três imperativos (renuncie-se, leve a cruz e siga-me) que partem de uma condicional: “Se alguém quiser seguir...”. Ir atrás de Jesus não é imperativo, não é obrigação. É escolha; a fé é proposta, é apresentada como convite para quem quer seguir Jesus. O discipulado não encontra sentido como algo imposto, não vem de fora senão de uma adesão livre, pessoal e consciente pelo Filho de Deus, que livremente por nós se entregou, amando-nos até o fim, a morte de cruz. Se o seguimento do Nazareno não é imperativo, o mesmo não pode ser dito da renúncia necessária para segui-lo. Uma vez tendo se disposto a segui-lo, a renúncia torna-se exigência do caminho a ser percorrido. Ela não tem valor em si mesma, senão em vista do seguimento ao Mestre que vai à frente enfrentando a paixão e ensinando o caminho do amor e da fidelidade. Acontece que a adesão à pessoa de Jesus e ao seu Reino tem sabor de radicalidade e comporta exclusividade: ou se pertence a ele ou não se faz parte do grupo dos “com Jesus”, como Marcos costuma chamar o grupo dos doze apóstolos. O argumento para tal radicalidade vem logo em seguida. Marcos faz questão de explicar tudo direitinho para que não haja equívocos. Que ninguém abandone uma migalha que seja para depois reclamar da escolha feita.
O argumento da exigência começa com uma explicativa: “Pois aquele que quiser salvar a sua alma a perderá; quem, porém, perder sua alma por causa de mim e do evangelho a salvará” (v. 35). A negação de si mesmo, a tomada da cruz e o seguimento exigidos no versículo anterior ganham sentido quando entendidos por uma causa maior: a salvação da própria vida, perdida em meio a tantas tentativas de encontrar-se. Ao “perder-se” a si mesmo, o discípulo se encontra numa singularidade sem par, advinda de uma causa mais nobre que não a procura narcisista de si mesmo: Jesus e seu evangelho. Não há argumentação mais clara. A renúncia se encontra no imperativo não por causa daquele que é seguido, mas por amor ao seguidor; não por intransigência do mestre, mas por limitação do discípulo; não por capricho de quem chama, mas por debilidade daquele que foi chamado. Vale observar a delicadeza marcana “quem quiser salvar a sua alma...”. Querer salvar a própria vida é escolha pessoal, assim como também a decisão de seguir atrás do Mestre.  Perdê-la por causa de Jesus e do evangelho, porém, não é ação própria, mas do Espírito que age na vida daquele que aceita a proposta de Jesus (“quem perder sua alma por causa de mim e do evangelho” e não “quem quiser perder sua vida por causa de mim e do evangelho”). Observe que Marcos não diz “aquele que quiser perder sua vida”, pois não parece razoável alguém querer perder-se. Marcos dá a “perdição de si mesmo” como um dado (quem perder). A condição de possibilidade do perder-se não se encontra nas próprias forças, mas na dynamis daquele que nos amou e nos chamou ao seu seguimento; ela é ação do Espírito na vida do discípulo.
E Marcos ainda interroga: “Pois qual a utilidade de um homem lucrar o mundo inteiro e sua alma ser danificada? Pois que daria alguém dar [em] equivalente da sua alma?”  (v. 36-37). O evangelista não vê nenhuma vantagem em lucrar o mundo inteiro, se a pessoa perde sua identidade de filho no Filho, cuja vocação primeira é amar e doar-se como Aquele que o filiou. Ter a alma danificada parece indicar a fuga da vocação mais genuína, daquela interioridade que nos é mais autêntica, mais particular. Não há nada que possa ser dado em troca desse bem maior: o de ter posse de si mesmo para se ofertar a outrem, num eterno perder-se para se encontrar.
Mateus e Lucas foram fidelíssimos a Marcos. O texto se encontra quase sem alterações, salvas raríssimas exceções. A primeira é que Mt 16,24 e Lc 9,23 não utilizam o verbo seguir como no v. 34 de Marcos (Se alguém quiser seguir atrás de mim...). O convite de Jesus se dá com o verbo vir (Se alguém quiser vir atrás de mim...). Uma distinção oportuna para que a condição do convite e os imperativos do convite não se confundam. Ir atrás de Jesus é escolha; renunciar, tomar a cruz e seguir é exigência para quem se pôs a caminho com ele. A segunda diferença é que Mt 9,25 e Lc 19,24 não usam a Palavra evangelho como faz Mc 8,35 (quem perder sua alma por causa de mim e do evangelho). Mateus e Lucas ignoram essa expressão. Para eles, a perdição de si mesmo irrompe-se como um dado por causa de Jesus. A princípio, diríamos que Mateus e Lucas suprimiram a expressão “e do evangelho”, mas por que motivo? Talvez porque para eles, que escrevem 10 anos depois de Marcos e a partir de Marcos, já está claríssimo que Jesus é o evangelho vivo – a boa nova do Pai – e não parece necessário distinguir as duas coisas.
Marcos provavelmente escreveu seu Evangelho na década de 60, ou a muito tardar no ano 70. Sua comunidade teria conservado a radicalidade do discipulado, tematizando-a como “renunciar a si mesmo, tomar a cruz e seguir o Mestre”. A cruz, berço no qual o Filho descansou sua cabeça nos ombros do Pai, já aparece como algo bendito, algo a ser abraçado e não como algo repulsivo ou maldito como se pensava antes, no tempo de Jesus. Se é assim, pouca probabilidade encontramos em atribuir tais palavras ao Jesus histórico. A radicalidade do seguimento se encontra nele depositada, mas a formulação parece advinda de uma teologia cristológica posterior. Não é preciso que Jesus tenha dito tais palavras para que elas sejam autênticas e dignas de credibilidade. A autenticidade e a credibilidade de tais palavras não estão na pronunciação do que foi dito, mas na vida de renúncia que Jesus viveu e na sua obediência ao Pai. É certo que ninguém ficou escrevendo ou gravando o que Jesus disse para depois escrever o Evangelho. Os Evangelhos são elaborações teológicas de pessoas de fé, que queriam registrar as experiências de suas comunidades para que elas servissem de testemunho para outros seguidores. Ora, Marcos, experimentando na própria vida a radicalidade do seguimento de Jesus e testemunhando essa mesma radicalidade vivida por tantos membros das comunidades cristãs nascentes – especialmente o apóstolo Paulo –, percebe que ela é condição da qual não é possível abrir mão no caminho do discipulado. Por isso, ele deixa claro: “Se alguém quiser seguir atrás de mim, renuncie-se a si mesmo, leve a sua cruz e siga-me” (v. 34b).
Na semana que vem, falaremos um pouco sobre as renúncias relatadas por Paulo em suas cartas e a aproximação de sua vida com as exigências registradas no Evangelho de Marcos. Até lá!


Solange Maria do Carmo

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