sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ESAÚ E JACÓ: ELOGIO À ESPERTEZA E À TEIMOSIA-1



A história de Esaú e Jacó, tão antiga e tão conhecida na comunidade eclesial, será nosso chão adubado para semear a intriga necessária entre a esperteza e a ingenuidade, entre a teimosia fiel e a acomodação. A intriga entre as duas últimas emerge com menos complexidade, uma vez que os Evangelhos não cessam de condenar a preguiça e a acomodação, não poupando elogios e incentivos à perseverança ou teimosia inteligente. Contra a lei do menor esforço, temos a famosa frase do apocalipse de Marcos, que recomenda a perseverança em meio a toda adversidade, mesmo a preço da própria vida: “Aquele que perseverar até o fim será salvo!” (Mc 13,13). A segunda intriga não é tão fácil de abordar: esperteza e ingenuidade, ou vivacidade e honestidade, não se contrapõem de igual maneira. Todas as duas são virtudes e de tal modo importantes que aparecem recomendadas por Jesus na famosa frase dita a seus discípulos: “Sede prudentes (espertos) como as serpentes e simples (puros ou ingênuos ou mansos) como as pombas” (Mt 10,16b).

Esperteza: um perigo ou um dom?

Esperteza parece coisa de gente desonesta, de trapaceiros sem ética, pessoas sem escrúpulos que a todo custo fazem valer vantagens para si e para os seus. Nossa formação cristã não deu muito espaço para a sagacidade e a esperteza, tão presentes na Bíblia e tão elogiadas pelos escritos sagrados. A formação tradicional católica nos educou para ser ingênuos, fatalistas, conformistas até. Preparou-nos para uma sociedade cristã, homogênea, sem atropelos, onde a história segue seu curso como rio manso e calmo a desaguar no mar da eternidade. Na aventura da hegemonia católica, ela não nos educou para ser capciosos e sagazes, não nos preparou para enfrentar a vida moderna, muito menos a pós-moderna, e exaurir delas o que têm de melhor. Confrontados hoje com resquícios da sociedade moderna, que despreza os grandes relatos e valoriza as pequenas narrativas, e com a pós-moderna, que tanto valoriza o pluralismo e nos assedia de todos os lados, nós cristãos nos percebemos por vezes sem chão, sem armas para enfrentar a esperteza e a rapidez das novas sociedades. Parece que nos foi tirada nossa segurança; sentimo-nos como cegos em tiroteio: despreparados para viver dispersos no mundo secularizado. Como sobreviver em meio a esse mundo nada harmônico, nada lógico, convivendo com realidades tão distintas? Como não perder nossa identidade cristã no convívio com tantos povos, tantas crenças, tantas religiões, tantas informações e valores tão distintos? Como firmar nossa identidade cristã? Só com muita sagacidade e esperteza, sem neuroses, sem medo do mundo, sem melancolia do passado, mas com uma boa dose de teimosia... Na trilha da esperteza e da teimosia, tomemos como modelo o relato de Esaú e Jacó.

Conhecendo o contexto do relato

A história de Esaú e Jacó se encontra no Livro do Gênesis, dos capítulos 25,19 a 36,43. É um relato expressivo, em tamanho e em riqueza teológica. Se nós considerarmos que Gn 1–11 tem outro gênero literário e não pode ser lido com o mesmo olhar que o restante desse livro, então o ciclo de Esaú e Jacó ocupa o centro do relato dos patriarcas, que vai de Gn 12 a 50. Existe um antes de Esaú e Jacó (Gn 12,1–25,18), que relata a saga de Abraão e de seu filho Isaac, e um depois de Esaú e Jacó (Gn 37,1–50,26), que relata a história de José e de seus irmãos em Canaã e no Egito. A centralidade do texto no conjunto do livro aponta para a centralidade dos personagens Esaú e Jacó na história de Israel. Aliás, Israel, aquele cujo nome o povo carrega e que literalmente significa “o homem que viu Deus”, é o mesmo personagem Jacó (cujo significado é calcanhar), que muda de nome depois de enfrentar o anjo do Senhor num embate muito interessante: um relato com requintes de criatividade que aparece em Gn 32,22-33. Israel passa a ser entendido como “o homem que lutou com Deus”.
O livro do Gênesis, apesar de recolher textos de tempos bem mais remotos, ganha forma com a Tradição Sacerdotal, no Exílio e Pós-exílio. O Exílio na Babilônia fora uma dura, mas rica experiência. Levados de sua terra natal por Nabucodonosor em 597 aC, o povo hebreu aprendera a sobreviver em tempos adversos, na diáspora. Quando estavam dispersos na Babilônia, entre as mais diversas crenças e culturas, foi preciso ficar esperto. Tornou-se uma questão de sobrevivência ter sagacidade para defender sua identidade e não se perder no meio de um povo estranho. A passagem pela Babilônia fora uma escola importante: em vez de ficar chorando de saudade da vida em Jerusalém (do templo, do culto, dos costumes judaicos, etc) como lembra o salmo 137, era preciso usar de sagacidade, de esperteza, para manter a identidade judaica e salvar a fé monoteísta ameaçada pelo contato com os cultos sedutores das religiões estrangeiras. Aliás, conselho muito sábio dado por Jeremias em sua Carta aos Exilados (cf. Jr 29,1-28). Nada de depressão, nada de melancolia. Desistir, nem pensar! É preciso aguardar com paciência e viver com esperteza, guardando munição para a hora certa de agir. É nesse contexto que nasce o relato de Esaú e Jacó. Tempo em que ser sagaz, esperto, teimoso e perseverante é condição primordial para sobreviver e ser fiel ao Senhor. 
O autor dos relatos do ciclo Esaú e Jacó revela uma genialidade e uma capacidade narrativa que impressionam. Ele elabora um texto teológico, cuja finalidade é transmitir às gerações vindouras a experiência de Deus feita por sua comunidade de fé, motivando-a à mesma fidelidade e teimosia experimentadas na caminhada com Deus. Para isso, usa uma antiga arte presente na humanidade: a contação de histórias. Para falar de suas origens como povo que pertence ao Senhor, de sua perseverança na fé, de sua luta contra tudo e contra todos para se manter monoteísta, o autor conta histórias. Histórias cheias de detalhes, de recursos de linguagem, de imaginação, de criatividade; histórias que demonstram a capacidade literária do autor e ainda mais sua sensibilidade para o belo e o inusitado. Ao relatar a fidelidade de seu antigo pai Jacó, suas pelejas e conquistas, permeadas de atropelos e sofrimentos mil, o autor aproveita também para explicar antigas inimizades entre o povo israelita e seu vizinho – os edomitas (povo descendente de Esaú – cf. Gn 25,19-26), alguns costumes alimentares (como não comer o nervo da coxa dos animais – cf. Gn 32,23-33), o antigo costume entre os judeus de não se casarem com pessoas de outro povo (cf. Gn 26,34-35; 28,1-9), a origem do nome de lugares (como Betel, casa de Deus – cf. Gn 28,10-22; Fanuel, face de Deus – cf. Gn 32,31; Sucot, as tendas – cf. Gn 32,17), de cidades (Bersabéia, abundância – cf. Gn 26,32-33) ou de poços (como Esec, desafio; Sitna, inimizade; Reobot, espaço – cf. Gn 26,17-24) etc. São etiologias: relatos que explicam a origem de nomes de lugares ou de algum costume, etc.
Na próxima semana, vamos contar essa intrigante e inteligente história de trapaças como numa novela: em capítulos que se sucedem. Acompanhe pelo blog, toda sexta-feira.


SOLANGE MARIA DO CARMO
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