sexta-feira, 30 de abril de 2010

Aprendendo catequese com o autor de Hebreus-1


Salta aos olhos o caráter cristológico de Hebreus. Uma catequese cristológica bem elaborada se delineia nesse escrito do começo ao fim. Seu autor, com maestria e elegância, traça um verdadeiro itinerário teológico-catequético, mostrando quem é Jesus e oferecendo aos seus leitores a oportunidade de abraçar a salvação que só o Filho, o único e sumo sacerdote (Hb 8,1), oferece.

Num diálogo franco com a comunidade cristã de origem judaica, o texto de Hebreus escava as raízes escriturísticas que alicerçam a fé de seu público e aponta as fragilidades desse arcabouço teológico, mostrando a caducidade dos tempos antigos – o outrora de Hb 1,1 – e fazendo a passagem para a definitividade do hoje inaugurado em Cristo Jesus – também chamado de esses dias que são os últimos, presente em Hb1,2a.

Desde o começo de seu escrito, o autor deixa clara a sua intenção: passar da palavra de Deus manifestada aos nossos pais na história de Israel à Palavra de Deus encarnada no Filho que se fez homem, “a quem Deus constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual criou o universo” (Hb 1,2b). E a glória de Deus antes experimentada pelos pais e pelos profetas acaba elevada à máxima potência no Filho, “resplendor da glória do Pai e expressão do seu ser” (Hb 1,3).

Para mostrar que os grandes símbolos da fé judaica – a Torá, o Templo e o Sacerdócio Levítico, com seus cultos, sacrifícios e rituais – são apenas prefiguração cristológica e que, por isso, cederam lugar a algo mais consistente e definitivo, o autor de Hebreus faz uma catequese cujas bases se encontram no Antigo Testamento. Busca a significação mais profunda de alguns ritos e instituições judaicas, fazendo intensa e original exegese de textos seletos das Escrituras. A partir desse retorno escriturístico, revela a caducidade desses símbolos, que se tornam aperfeiçoados somente em Cristo, o “aperfeiçoado de Deus” (Hb 2,10), cuja “vida foi levada à perfeição e por isso tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9).

Num contínuo jogo entre o outrora e o hoje, o autor de Hebreus põe na balança o antigo e o novo. É o característico método hermenêutico judaico, o derash (1), que, nas suas mais diversas modalidades, interpreta e atualiza as Escrituras Antigas, considerando-as como tradição viva e iluminadora do momento atual. Dentro desse modelo, encontra-se o derash prefiguração/realização, que utiliza regra hermenêutica
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1-Sobre o derash bíblico, cf. AGUA PEREZ, Augustín del. El método midrásico y la exégesis del Nuevo Testamento. Valencia: Institución San Jerónimo, 1985.
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conhecida como Qal wa-chomer (literalmente, leve e pesado). Por meio dessa regra hermenêutica, fica revelada a leveza das antigas instituições, sua inconsistência e incapacidade de salvar, bem como o peso da realidade em Cristo, a densidade teológica de sua obra salvífica.

Delineia-se, assim, a catequese cristológica de Hebreus: “Tal é o sacerdote que temos, que se sentou à direita do trono da Majestade, nos céus. Ele é o ministro do Santuário e da Tenda verdadeira, erguida pelo Senhor e não por mão humana”. Passaram os antigos ritos. Os antigos mediadores – Moisés (cf. Hb 3,1-6), Josué (cf. Hb 4,1-10), os anjos (cf. Hb 2,5-18), os sacerdotes levitas (cf. Hb 5,1-10; 7,1-28) cederam lugar ao definitivo sacerdote. A Tenda do deserto, sombra ou cópia do Santuário Celeste (cf. Hb 8,1-6), fica obsoleta: o Filho, imagem do Pai, inaugurou a Tenda definitiva com sua entrada no céu (cf. Hb 9,11-12). Os sacrifícios e rituais perderam seu vigor, tiveram vencido seu prazo de validade. Quem tem a imagem verdadeira não precisa mais da sombra. O Filho ofereceu uma vez por todas o único e irrepetível sacrifício de sua vida aperfeiçoada pela obediência ao Pai. O Yom Kippur -(2) definitivo foi realizado no Céu (cf. Hb 9,24-28).

Alimentada por tal catequese, a comunidade cristã ouvinte dessa belíssima homilia pascal -(3) sente-se convidada a não se contentar com a periferia da fé. Tendo mergulhado no mistério de Cristo sacerdote eterno, faz a experiência da salvação e segue o mesmo caminho que fez Jesus de Nazaré, o sacerdote eterno do Pai. Corajosamente a comunidade enfrenta todas as adversidades e compartilha a dolorosa trajetória de Jesus por meio do martírio (cf. Hb 10,32-39). Mas sobre essa fidelidade da comunidade, falaremos na semana que vem.
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2-Literalmente, Dia da Expiação. Cf. ANDRADE, Aíla Pinheiro. Sombra e realidade: um estudo de Hb 10 à luz da “perfeição” de Cristo. Revista Bíblica Brasileira, Fortaleza, v. 21, n. 4, p. 100-104, 2004. Sobre a celebração do Yom Kippur, cf. AVRIL, Anne-Catherine; DE LA MAISONNEUVE, Dominique. As festas judaicas. São Paulo: Paulus, 1997. p. 123-138.
3-Pensa-se que a conhecida Carta aos Hebreus, originalmente, tenha sido uma homilia proferida na ocasião da Páscoa. Mais tarde, um redator, acrescentando os versículos finais (13,22-25), remete-a à comunidade de destino com esse bilhetinho anexo. Cf. VANHOYE, Albert. La question littérarie de Hébreux 13,1-6. New Testament Studies, n. 23, p. 121-139, 1976.
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SOLANGE MARIA DO CARMO
DOUTORANDA EM CATEQUESE E PROFESSORA DE TEOLOGIA BÍBLICA NA PUC-BH
AUTORA DA COLEÇÃO CATEQUESE PERMANENTE DA PAULUS EDITORA COM Pe ORIONE (MATERIAL QUE SERÁ ADOTADO PELA DIOCESE DE LORENA EM 2010)
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